quarta-feira, 19 de julho de 2017

Os bastidores do Mercado Público de Porto Alegre

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Sou filho de funcionário do Mercado Público de Porto Alegre. Sempre me pareceu equivocado as percepções das pessoas sobre o local. O cheiro. O clima. As opiniões sempre distantes e críticas. Ou, muitas vezes, demasiadamente festivas.

O Mercado Público de Porto Alegre é um dos corações da cidade. E isso se dá, na maior parte, pelas pessoas que lá trabalham. Pessoas reais. Pessoas que acordam cedo e trabalham muito. Pessoas que riem, discutem e confraternizam.


Enfim. Por isso produzi esse material - que originalmente era acadêmico, mas gostei tanto que resolvi compartilhar com vocês. O Mercado Público de quem trabalha lá.

Assista!

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A inevitável herança da tradição judaico-cristã no pensamento contemporâneo


Por Eduardo Dorneles

Ô!, sério!, se tem uma coisa feia pra caramba é o desprezo à tradição judaico-cristã. 

E não tem nada a ver com fé, mas sim ao desprezo a ideias e valores que formaram o pensamento ocidental. 

Sim! Os piores são aqueles que se alinham ideologicamente à esquerda.

Cara, se você se diz de esquerda, antes mesmo de Marx, você é um herdeiro filosófico de Rousseau. E, grosso modo, duas heranças de Rousseau são: o mito do bom selvagem - a ideia de que o homem é bom e a sociedade o corrompe - e sonho da soberania popular - a utopia do povo unido conduzindo a civilização ao seu apogeu. 

Estas premissas rousseaunianas e suas variáveis, através das circunstâncias dos anos desde a Revolução Francesa em 1789, são a base ideológica da esquerda. 

Não. Não argumente. Seja honesto. Você sabe que estes são os dois pilares que sustentam sua visão de mundo. E tudo bem por isso.

Entretanto, por favor, seja intelectualmente honesto: elas são fruto do esforço de secularizar fundamentos do cristianismo.  

Olhe com atenção! 

O bom selvagem é uma versão do mito adâmico: Adão e Eva foram criados à imagem e semelhança de Deus, mas pecaram e amaldiçoaram a humanidade. O homem bom se corrompeu.

A sociedade justa representada pela "vontade geral" é um arquétipo do Reino dos Céus vindouro prometido por Cristo. 

"Ah, mas é uma leitura política a de Rousseau", você diz. Não apenas. Também é uma tentativa de "resolver o problema do Mal no mundo pelo princípio soberano da presença do Bem cujo 'rosto' não é mais o de Deus, mas o do povo", explica Francisco Razzo, autor de "A Imaginação Totalitária".

Nietzsche ilustra bem isso com seu conceito de sistema religioso de pensamento. A projeção do que deveria ser o mundo e a negação do que ele é; o abandono do real pelo ideal. Ele, obviamente, exemplificou a ideia com o cristianismo, mas é inegável que isso se reproduz com as religiões políticas que pululam por aí. Vide o incontável número de causas que prometem salvar o mundo, mas, no fim, servem mais como narrativa de sentido e grupo de pertencimento a narcisistas cada vez mais solitários.  

Enfim. 

Preste atenção nestes sistemas de pensamento religiosos contemporâneos. Estes que, se você for de esquerda, desculpe, provavelmente você faz parte. Atente-se às palavras-chave. Aos conceitos tão apregoados e defendidos. Estes mesmos que você escreve em cartazes e os ergue na Esquina Democrática ou na Redenção, em Porto Alegre, ou posta em textões no seu Facebook. 

Faça um esforço, vai. De humildade, principalmente. Reconheça que você herdou quase tudo que sustenta sua visão de mundo, primeiro. Agora tente ver as pegadas. A forma como estes termos se modificaram e se adequaram. 

Amor. 

Esperança.

Tolerância. 

Justiça.

Igualdade. 

Continuo ou você entendeu? 

Estes conceitos fundamentais na cultura ocidental, quer você queira ou não, quer você tenha consciência ou não, são heranças da tradição judaico-cristã. 

Você precisa ser cristão agora? Óbvio que não! E este é o problema de parte da direita, por sinal. Ela reconhece e valoriza a herança judaico-cristã – até demais! -. mas se equivoca ao entender que a profissão de fé é o caminho para uma sociedade melhor. Mania de religioso, como vimos antes. Porém, o exercício de duas virtudes, também heranças da tradição judaico-cristã, são fundamentais para uma vida saudável: humildade e gratidão.

Reconheça o que origina suas causas e seja grato às contribuições feitas pelos que vieram antes de você. Respeite a tradição judaico-cristã, cara. 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

É REDE! Entrevista com Marco de Vargas


No jogo Grêmio 3 x 2 Iquique, disputado em 11 de abril de 2017, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa Libertadores, algo chamou atenção. Não foram os gols, a atuação dos atletas ou o "nana neném" - termo cunhado por Renato Portaluppi, técnico gremista, para explicar o apagão de sua equipe no segundo. O que marcou o jogo foi a narração de Marco de Vargas, da FOX Sports. A empolgação do narrador ganhou as redes sociais e se tornou um símbolo da campanha gremista na competição. Confira o que ele pensou da repercussão nesta entrevista exclusiva!

quarta-feira, 14 de junho de 2017

As pessoas não são fascistas porque discordam de você


Por Eduardo Dorneles

Ele tem 17 anos. Ele mora em Viamão, mas pega a condução em Porto Alegre. No Campus do Vale, na UFRGS para ser mais exato. Ele trabalha em um supermercado na Avenida Ipiranga.

Ele estuda à noite. Corre. Está sempre cansado. A vida é dura, porém digna. Seus pais sempre o ensinaram o que era certo e errado - e ai dele sair desse caminho. 

Oportunidades fáceis e ilegais? Surgiam a todo tempo. Em cada esquina. Alguns amigos cederam à tentação. Ele não. Ele insistia no certo. Na vida honesta. Era difícil, mas valoroso. 

Honra. Foi o que o pai, porteiro, e a mãe, diarista, sempre o ensinaram. Era isso que ele aprendia na igreja evangélica também. Lá ele era parte de algo. Havia o senso de propósito, de comunidade. Ele aprendera a tocar baixo naquelas noites. Ministrava o louvor no Culto dos Jovens. 

A vida era dura. Era difícil. Mas ele escolhera o caminho honesto. 

Entretanto, havia algo que o irritava. Algo que o deixava enfurecido. O quê? A forma como aqueles “burgueses” que estudavam na UFRGS, onde ele pegava o ônibus para ir ao trabalho todos os dias, se referiam aos assaltantes e traficantes da região. 

Vítimas, eles diziam.

Vítimas? Sim!, vítimas de uma sociedade opressora. 

Ele não podia com essas afirmações. Por ele, ladrões e traficantes tinham que ter os dedos cortados e a testa tatuada: "sou ladrão e sou vacilão".

Vítima? Vítima sou eu que trabalho honestamente a vida toda, acordo cedo, estudo até tarde, sou assaltado e tenho que ouvir que bandido merece pena, pensava o garoto.

Eu sei. Que absurdo! E os direitos humanos? E a misericórdia? 

Você conhece pessoas assim. Pessoas que dizem "direitos humanos são para pessoas direitas". Pessoas que se dizem "de bem" e confabulam crueldades sem fim em nome de justiça própria. 

Eu sei que você caçoa delas. Eu sei que você as acha, no mínimo, ignorantes. Sei que no fundo você pensa: fascista!

Talvez você tenha razão. Mas proponho uma questão: você já se colocou no lugar dela? 

A metáfora inicial é uma tentativa de fazer você se aproximar destas pessoas. Elas não defendem Bolsonaro, aplaudem tortura e louvam pena de morte porque são burras, fascistas ou "conservadoras" - sim, em aspas porque a maioria que acusa e a maioria que aceita ser acusado por essa definição (conservador) não faz a mínima ideia do que isso significa; enfim, isso é assunto para outro momento. 

Elas defendem Bolsonaro, aplaudem tortura e louvam pena de morte porque estão com medo.

Medo da insegurança. Medo de terem o pouco que conquistaram levado à força. Medo de serem ainda mais injustiçadas. E, principalmente, estão com medo de ouvir que a culpa por isso é delas. 

Afinal, se a culpa é da sociedade, a culpa é de todos. Não apenas de quem escolhe roubar ou matar, mas também de quem, como o garoto da história, se esforça para levar uma vida honesta.

Direitos humanos são fundamentais. Eleger Bolsonaro presidente seria um grande equívoco - econômico, político e social. Porém, não se explica isso às pessoas as chamando de burras ou fascistas.

Desça do salto dos seus livros lidos.

Saia da bolha do seu diretório acadêmico.

Deixe de lado suas teorias de gabinete.

Olhe as pessoas. Elas estão com medo. Elas estão irritadas - principalmente se você é um destes. E elas têm razão, convenhamos. 

Dialogue. Explique. Não apregoe. Quanto mais você quiser mudar as coisas para "melhor" chutando a porta, mais as pessoas vão reagir contrárias. 

Pratique a tolerância que você tanto prega nos textões que você posta no seu Facebook. Pratique o amor que você tanto pede nas manifestações na Esquina Democrática. 

Senão, já viu!, Bolsonaro é eleito presidente em 2018.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

O pesadelo de uma noite de outono


Por Eduardo Dorneles 

Aconteceu algo comigo que há muito não ocorria. Algo que faz parte de um passado distante. Algo que não combina muito com a pessoa que me tornei.  

Eu tive um pesadelo.  

Importante frisar: tenho sonhos ruins, é claro. Às vezes, mas os tenho.  

Sonhos que projetam memórias há muito soterradas, traumas que se materializam, anseios que ganham formas, lembranças das tragédias que chegam até mim cotidianamente. Enfim. Coisas que, de uma forma ou de outra, fazem sentido.  

O episódio desta referida noite foi diferente.  

Não vou entrar em detalhes, evidentemente. Não pretendo dar pano para manga. Não quero vê-lo, com todo o respeito, conjecturando teorias a meu respeito. Estou tranquilo quanto as minhas patologias. Relaciono-me bem comigo mesmo.  

O especial do episódio, se é que podemos adjetivar desta forma, foi o absurdo terror que foi incutido em mim. Prova? Acordei com um "arrgghhh". 

Sim, exatamente como o cinema costuma mostrar episódios semelhantes. 

Assim que a embriaguez do sono passou, ri da cena. Onde já se viu um homenzarrão como este que vos fala despertar aos gritos? Entretanto, logo essa crítica se desfez diante do fato que o terror continuar lá, intimidando e provocando meu intelecto. Nada que eu pudesse dizer ou fazer alterava aquela situação.  

Demorou, mas passou. Voltei a dormir. Acordei tarde. A circunstância que me aterrorizou continuava na minha memória. Até hoje ela continua, para ser honesto. Vez ou outra ainda penso nela. Pensei nela há pouco. Este foi o motivo de começar a escrever as palavras que você tem lido nos últimos instantes.  

Fique tranquilo, querido: está tudo bem. Porém, isso me fez refletir, me fez lembrar do humilhante fato: não sou senhor de mim mesmo.  

Não controlo o que penso. Não domino o que se passa dentro ou fora do meu corpo. Sou como um passageiro que não conhece o destino da viagem. Minha vida não me pertence. Ela escorre e escapa entre meus dedos.  

É importante lembrar isso. É uma lição de humildade e uma grande oportunidade de demonstrar coragem. Afinal, o que é mais assustador do que ser confrontado pela Roda da Fortuna do destino?  

Posso falar por mim: aquele pesadelo era mais assustador.